Na tradição iorubá, Nanã é considerada a mais velha das Iyabás (orixás femininos). Ela mantém uma ligação profunda com as Ìyamì (ou grandes mães ancestrais), partilhando com elas o mistério do poder sobre a criação, a vida e principalmente a morte.
Ambas representam o aspecto mais temido e respeitado do feminino sagrado.
Enquanto Nanã representa a ancestralidade primordial que molda o corpo e a memória, as Ìyámì (frequentemente associadas a Oxorongá e ao poder das feiticeiras ou Ajé) simbolizam a força mística e vingativa da natureza. Por dividirem esse grande poder, figuras como Nanã e as Ìyámì exigem grande respeito e são associadas a energias que demandam cautela. É comum no panteão que apenas Oxalá consiga acalmar ou interceder diante da severidade dessas entidades.
Nanã Buruquê e as Ìyámì Oxorongá compartilham o topo da hierarquia espiritual do feminino sagrado iorubá, governando os mistérios mais profundos do ciclo existencial.
1. O Mito da Criação e a Relação entre Nanã e as Ìyámì
No início dos tempos, quando Olodumare (o Deus Supremo) encarregou os Orixás de criar o mundo, uma disputa pelo poder se estabeleceu entre as forças masculinas e femininas.
O erro dos Orixás: Os Orixás masculinos tentaram governar a Terra sem a participação ou o consentimento das mulheres.
A revolta das Ìyámì: Sentindo-se excluídas, as Ìyámì (as Grandes Mães Ancestrais) usaram seus poderes místicos para tornar a Terra estéril, impedindo que qualquer plantação crescesse e que as mulheres gerassem filhos.
A matéria da criação: Quando Oxalá foi incumbido de modelar os seres humanos, ele falhou ao tentar usar pedra, madeira e fogo. Foi Nanã Buruquê, a mais velha das Iyabás, quem cedeu a lama do fundo dos pântanos (seu domínio primordial) para que o homem ganhasse forma.
O pacto da morte: Nanã impôs uma condição para doar o seu material: após o fim da vida, os corpos deveriam retornar à terra para que ela os reciclagem. As Ìyámì tornaram-se as guardiãs que garantem o cumprimento desse ciclo natural, cobrando o tributo da morte.
2. Características e Oferendas Ligadas a Nanã
Nanã representa a sabedoria dos mais velhos, a paciência, o lodo primitivo e a calmaria das águas paradas ou pantanosas.
Domínios naturais: Pântanos, mangues, lama e as profundezas da terra úmida.
Ferramenta sagrada: O Ibiri, um cetro feito de nervuras de folhas de palmeira, curvado na ponta e enfeitado com búzios, que ela carrega como um bebê.
Interdição ao metal: Nanã não aceita ferramentas de ferro ou metal em seus rituais, pois ela existia no mundo muito antes da Idade dos Metais provocada por Ogum.
Oferendas tradicionais: Efó (folhas cozidas), sarapatel, mungunzá roxo, e o Abaçá (comida à base de milho e feijão). Suas cores são o roxo, o lilás e o azul-escuro.
3. O Papel das Ìyámì na Sociedade Iorubá
As Ìyámì (frequentemente chamadas de Ìyámì Oxorongá) não são Orixás individuais incorporáveis, mas sim uma sociedade secreta de espíritos ancestrais femininos de imenso poder político e mágico.
Poder de veto: Na sociedade tradicional iorubá, nenhum governante ou rei (Obá) conseguia governar ou tomar decisões importantes sem o apoio ou o consentimento das Ìyámì.
Controle da fertilidade: Elas comandam o fluxo da vida, sendo capazes de conceder a fertilidade plena ou causar a total esterilidade à sociedade.
Justiça implacável: Atuam como juízas cósmicas que punem severamente a arrogância, a mentira, o desrespeito aos mais velhos e o abuso de poder dos homens.
Metamorfose e pássaros: São intimamente ligadas aos pássaros sagrados (como a coruja e o urubu). Acredita-se que elas usam essas aves para vigiar a humanidade e executar seus vereditos.





